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sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Clarice



A melhor forma de esquecer uma mulher

é transformando-a em literatura.






Já tive Ritas, Claúdias, Anas, Alines, mas Clarice foi minha dor mais profunda, minha saudade mais presente e meu desejo mais intenso.
Intensidade que se tornou meu vício, minha mania, meu tesão de viver.
Clarice era o abraço-de-olhos-fechados, aquele cheiro único onde o pescoço se transforma em ombro. Clarice era o soluço-seguido-de-engasgo no meio daquele choro bobo, era o rosto vermelho de vergonha durante uma declaração, era a minha raiva ao ver ela decorar a casa com os copos com água pela metade.
Clarice era a companhia das insônias, das tardes tediosas de domingo, dos filmes nacionais na segunda, do agosto-com-gosto-de-desgosto, de setembro, de vários outonos.
Clarice era o porto onde minha alma descançava, era minha espera e por esperar o tempo dar tempo para nosso amor acontecer...eu escrevia.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Saudade de Clarice.


Há anos não via Clarice, ela realmente tinha me deixado. Na verdade acho que eu também a abandonei. Fazia tantos dias que não pensava nela e para mim isso era uma forma de traição. Eu estava traindo Clarice.

Não pensar nela era uma meia-morte, se é que isso é possível. Morrer pela metade ou me sentir mais morto do que naqueles últimos anos. O mais irônico ou mais triste é que não fazia anos que Clarice havia saído por aquela porta, apenas meses, pouco mais de quatro se não me engano.

Quatro longos meses de saudade-e-delírio-e-solidão. Meus dias eram solitários e minhas noites uma tortura. Clarice não sabia, mas por mais que eu não pensasse nela nesses últimos dias o apartamento e eu ainda esperava a sua volta.

A xícara com a alça virada pro lado esquerdo, o colchão com o lado direito vazio, a tampa do vazo abaixada, os passarinhos lá fora, a poltrona de frente pra janela e eu. Todos esperando Clarice. Esperando em vão, talvez.

Mas por qual outro motivo continuaria nesse apartamento, nessa vida, nesse corpo se não fosse pra esperar ela? Eu tinha pouca coisa, confesso. Mas o pouco que tinha era dela.

Talvez houvesse outro motivo pra continuar ali. Precisa tanto das lembranças, que agora já falhavam, quanto do ar. Precisava respirar recordações, pra mostrar para mim toda a manhã ao acordar que a Clarice era real, que ela esteve ali do meu lado, no meu colo e comigo. Isso era uma forma de continuar alimentando a esperança que eu tinha dela reaparecer do nada.

Confesso que às vezes pensava estar louco. Imaginava formas e formas da Clarice voltar, ensaiava declarações, beijos, brigas, sexo. Eu imaginava todas as noites como amaria Clarice, como tiraria aquele baby-doll preto que ela sempre usava, como beijaria seu corpo como uma forma de matar a saudade que eu tinha de cada linha, cada curva dela. Imaginava como seria sentir de novo aquele cheiro bom que só ela tinha aquele onde o pescoço deixa de ser pescoço pra ser ombro. Imaginava cada reação de Clarice ao sentir meu toque, imaginava minhas mãos sedentas por sentir o contato com a pele de Clarice. Imaginava como seria o reencontro das nossas bocas, dos nossos corpos, das nossas almas, como seria sentir de novo seu gosto, seu gozo. Imaginava, imaginava, imaginava, imaginava e acordava de novo, mais uma vez sozinho abraçado na ausência de Clarice.

O mais frustrante era que depois de tanto tempo minha memória falhava, tinha que me esforçar pra lembrar como era amar Clarice. E em meio a tantas falhas e faltas pensamentos me invadiam a cabeça. Pensamentos de como Clarice estaria sendo amada por outros homens, e moleques e moças e mulheres. Quantas mãos teriam conhecido aquele corpo depois da minha, quantas bocas beijaram Clarice por inteira como eu fazia incansavelmente todas as noites e manhãs e tardes e. E agora? O que o tempo faria de mim, das minhas recordações? E desse amor-possessivo-estranho-intenso que tinha por Clarice, que não voltou mais pra cidade, pro apartamento, pra xícara-com-a-alça-sempre-virada-pro-lado-esquerdo e pra mim.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Clarice, como sempre.


Certa vez me perguntaram qual era a cantada perfeita. E não soube responder. Porque só vinha Clarice em minha cabeça, nada de frases, de passos prontos de dança, noites planejadas de amor, nem declarações toscas, nem nada. Só Clarice me vinha à cabeça.

Clarice me tinha por motivos que eu mesmo desconhecia, era me descuidar e lá estava eu, jogado em sua cama e sem saber como lá fui parar. E saber disso pouco me importava, porque era bom aquilo, era boa a forma como Clarice dominava meus sentimentos, meus desejos e meu corpo.

Clarice me cortejava de uma forma encantadora, com sua forma despojada de me cantar e sorrir pra mim. Acho que era isso que me fazia apaixonado por ela. Mas nunca soube de fato em que momento Clarice me ganhava, se era com o ‘Te Amo’ no fim da frase, com o sorriso tímido a me ver, com as mãos que eram levadas ao rosto sempre que eu retribuía um elogio, com a cara fechada quando não respondia da forma que ela queria, com os olhos que eram o motivo da minha paz ou com o sentimento que ela tinha mim. Clarice me amava. Corajosa ela por isso, me amar não era tarefa fácil, às vezes nem eu conseguia tal proeza. Mas Clarice me amava e eu me desarmava todo quando ouvia sair de sua boca um ‘Eu te amo absurdamente’. Ah, nessa hora eu já não tinha proteção contra ela. O absurdamente naquele sotaque e naquela voz apressada de vergonha me deixava entregue e ela sabia disso, por isso repetia. Clarice me levaria pro inferno se quisesse só com essas palavras.

Clarice não precisava de formulas ou cantadas prontas pra me conquistar. Ou até usava desses artifícios, mas de uma forma que só ela sabia usar e me levar e me ter e me dar prazer. Clarice nunca me chamou pelo nome, só quando estava brava, fora isso se dirigia a mim como boy. E isso dava um charme todo especial a conquista diária que havia entre nós.

Clarice me conhecia como ninguém. Sabia todas minhas reações e eu nada podia fazer contra ela, ou a favor ou sei lá. Clarice sabia me levar como ninguém e eu a deixava fazer isso. Como era bom, como era gostoso ver Clarice me descobrindo.

Clarice sabia perfeitamente que quando eu mordia no canto da boca já estava louco de desejo por ela e por isso judiava, massacrava meu desejo me mostrando tudo que poderia fazer comigo, ou poderia nada fazer, porque Clarice não precisava fazer nada para me deixar com excitação.

Clarice me tirava a roupa sem falar nada, sem pedir, sem me tocar. Ela me tirava a roupa só com olhos, só com aquele desejo que havia naquele olhar atencioso pro meu corpo. Atenção que me levava pra cama, pro delírio e para o medo de viver sem aquilo, sem Clarice.

Com Clarice não havia nada perfeito, nem as noites, nem as comemorações, nem as conversas diárias e as brigas que sempre apareciam, nem as declarações e muito menos as cantadas. Com Clarice havia sinceridade, não perfeição. E isso nada garantia, nem felicidade, nem durabilidade, nem sexo. Porque com Clarice eu não tinha garantia de nada e isso me obrigava a amá-la todo dia e a deixar claro que naquele momento ela era minha cantada perfeita.

domingo, 9 de maio de 2010

Lembranças de Clarice.


Clarice sabia como fazer falta e como fazer que essa ausência fosse sentida. E eu sentia.

Sem Clarice eu era vazio, porque Clarice era tudo que eu tinha por dentro e tudo de bom que eu era dependia de Clarice e assim mantive Clarice viva nas conversas de beira-de-esquina, nos longos banhos, nos dois copos de cerveja, até na ausência de luz Clarice se fazia presente, como uma tentativa angustiada de sentir Clarice, de me sentir vivo.

Clarice nos finais de semana acendia velas pelo apartamento escuro e sentava na poltrona perto da janela para fumar observado algo que só ela era capaz de enxergar. Enquanto Clarice fumava, eu permanecia estático observando o olhar atendo de Clarice para a luz da vela.

Clarice era sutil, ao lado dela era impossível saber com certeza quando ela chegaria ou quando ela partiria e se fosse partir não se tinha garantia de volta. E eu de nada sabia ao seu lado.

Clarice sabia como me deixar perdido em suas não demonstrações. Eu poderia viver tentando decifrar Clarice, mas Clarice não era feita pra isso, o encanto dela era justamente aquele mistério.

Clarice por longas noites de amor me embriagou com seu sorriso tímido e me pediu com o olhar doce que descobrisse seu corpo, seus mistérios e eu a servia fielmente todas as noites e deixava que Clarice fizesse o que bem quisesse de mim e sussurrava em seu ouvido de pele quente que eu era inteiramente seu e pedia... Faça-de-mim-o-que-quiser-mas-faça-não-deixe-de-me-usar-porque-sou-apenas-seu.

E Clarice sabia como ninguém me deixar loucamente viciado. E Clarice era meu vício.

Vício esse que não poderia viver sem, porque Clarice era meu ar, meu motivo de continuar a existir. E com Clarice eu existia.

Mas até quando Clarice suportaria meu modo dependente de existir? Perguntava-me toda noite ao vê-la dormir em paz.

Clarice existia de modo tão leve, tão sublime. Clarice era mulher de suspiros profundos, olhar convidativo e voz mansa, o que a não tornava necessariamente uma pessoa mansa, porque Clarice não era.

Clarice era decidida em seus gostos, em seus jeitos e criteriosa em suas amizades. E eu era um sortudo de estar ali, ao seu lado.

Com Clarice aprendi a ser organizado, a ser claro mesmo ela sendo subjetiva. Aprendi a gostar de música boa e vinho de qualidade. O que era o oposto de quando nos conhecemos. Era interessante ver como Clarice foi capaz de mudar e de me mudar nesse tempo.

Clarice me fez gostar de ler e li pra ela todas as noites e mesmo sem Clarice mantive vivo esse costume e lia, agora, para a ausência de Clarice.

Com Clarice conheci as noites, seus mistérios, encantos e as estrelas. Clarice dizia que elas eram seu guia. E Clarice me guiava. Clarice era minha estrela. Minha...

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Clarice viva, apesar dos pesares.


Clarice queria mais, queria ser realista. E ser realista era ver que estar comigo não valia a pena. Talvez por isso Clarice fizesse parte de um mundo diferente do meu e seu mundo me rejeitava, ou ela estava me rejeitando só eu não queria acreditar. Porque acreditar seria deixar Clarice ir embora, deixar o apartamento, os planos de estar-pra-sempre-juntos e eu, que era a única ligação com tudo de ruim que ainda restava na vida de Clarice.

E ela queria deixar para trás tudo de ruim que a cercava e era por isso que ela, sem pensar pra não dar espaço pra culpa ou duvida, me tirava da sua vida de forma bruta, cortava nossos laços como quem corta qualquer papel velho e inútil pra ficar menor e mais fácil para se jogar no lixo. Clarice estava jogando nossa vida a dois no lixo.

Clarice jogou tudo no lixo.

Confesso que fiz de tudo pra manter Clarice viva, continuei sem deixar cuecas no chão, os dois pratos na mesa, as duas tolhas no banheiro, o espaço vazio na cama, o porta-retrato na mesinha de centro, as chaves debaixo do tapete e o ‘Bom dia, amor’. Assim era uma forma de sentir Clarice presente.

As lembranças de Clarice me faziam uma companhia em todos os dias, nas noites de frio abraçava sua lembrança como quem agarra a ultima chance de calor humano. E era isso que me manteve quente sem Clarice por perto.

Ao acordar sussurrava ao vento “Bom Dia, amor” acreditando que Clarice pudesse ouvir, ou pelo menos sentir minha presença, o meu amor que era dela mesmo longe.

Clarice estava presente em cada parte da casa, no banco na beira da janela em que ela sentava pensativa pra fumar os cigarros de filtro branco, na rede da varanda onde eu abraçada nela dava gargalhadas estridentes das nossas conversas sem sentido.

Na verdade Clarice era a única que me entendia sem necessidade de grandes explicações, esclarecimentos ou qualquer coisa do tipo. Com Clarice não era necessário nada explicar, ela simplesmente me compreendia. Clarice era doce e firme em suas palavras e pensamentos, não julgava ninguém e não gostava de ser julgada. Por isso tinha ânsia de liberdade, de libertação de todos os rótulos.

Clarice me fazia um bem enorme e era nesse fato que me apegava para continuar uma vida de solidão a dois. Esperando um dia acordar e ter alguma noticia de Clarice para enfim pergunta-la o motivo dessa distância, de deixar esse vazio no meu peito e agradecer de deixar o meu amor por ela, porque era esse amor que manteve Clarice viva em mim. E ela estava viva como meu amor por ela.

E dentro de mim Clarice não morreria.


E no fundo me confundo da origem desse vazio, se é pela partida de Clarice ou pela minha partida. Na verdade não sei quem foi embora primeiro, eu ou ela. Era evidente o sufoco que minha presente-ausência provocava a Clarice, que a cada dia que passava me afastava mais do seu convívio até que chegaria o dia que seria impossível toca-la. E esse dia chegou.

Clarice não chorou, não foi dramática e nem rude e também não voltou atrás. Clarice estava decidida a ser feliz e eu era o nó que faltava pra sua liberdade. Era minha presença que impedia Clarice de recomeçar e deixar para trás tudo de ruim, tudo que ela não queria carregar nessa nova fase. E eu não fui selecionado pra ela.

Na primeira noite sem Clarice não dormi, não comi, não chorei. Era como se aquilo não fosse real e que Clarice fosse sim entrar pela porta do quarto com aquele sorriso tímido e dizer que precisava-de-mim-pra-ser-feliz-pra-sempre. Mas a porta não se abriu Clarice não entrou e eu continuei ali até a claridade do sol arder em meus olhos avisando que era hora de levantar.

Sem Clarice era como viver com sede de algo que não existe. Era uma fome constante, um buraco enorme no peito. Sem Clarice era difícil respirar. Era como se todo ato de vida fosse uma tentativa falha de ter Clarice novamente, mas morrer fosse deixar Clarice de vez e isso eu não queria e não podia porque precisava de Clarice até para ter coragem de morrer.

Clarice tinha levado tudo de mais precioso, as fotos de infância, o pinguin-feio de geladeira, as xícaras de café sem açúcar e meus movimentos. Sem Clarice era difícil caminhar porque Clarice era meus passos, o meu equilíbrio e meu destino.

E Clarice era minha voz e eu agora mudo suplicava desesperadamente para que ela voltasse e me entregasse novamente minhas gargalhas estridentes. Clarice se cansou até das minhas crises idiotas de riso, das minhas brincadeiras infames e do meu amor bobo e pouco dedicado a ela.

Clarice era muito pra mim porque era a prova viva de tudo que perdi nesses anos inúteis de vida. Clarice era o motivo pra que eu fosse melhor a cada dia porque ser bom pra Clarice era estar vivo, era sentir o sangue quente correr em minhas veias prejudicadas pelo vicio a cada sorriso de Clarice.

Clarice era o meu motivo de amar e nossas longas noites de amor me faziam sentir homem outra e outra vez e me obrigava a ser melhor porque Clarice merecia o melhor de mim. E a toda manhã enquanto o sol rasgava a janela o quarto pequeno de cortinas brancas eu rasgava de mim o melhor para oferecer a Clarice no primeiro instante do dia.

Clarice me fazia ter certeza que todos os dias seriam ótimos só pelo fato de que era ela que me dava o primeiro ‘Bom dia, amor’ de manhã. E com Clarice todos os problemas deixavam de ser problemas porque podia estar dando tudo errado que ao ver Clarice tudo estava certo e em seu devido lugar. Clarice era minha tranqüilidade de seguir.

Clarice foi embora e me deixou um vazio no peito e não o desespero de estar só, mas de estar sem ela. E eu estava sem Clarice.

Sem Clarice só percebia que o dia tinha chegado ao fim pela falta de luz por trás da janela quase fechada e eu sabia que era o fim de mais um dia sem Clarice, mas com essa esperança faminta de um dia poder respirar aliviado, sem esse desespero de não saber a quantos anos, dias ou horas estava sem Clarice, porque não importava há quanto tempo estava sem ela, mas sim que eu estava sem ela e isso me comia por dentro, por fora, pelos lados, pelos buracos, pelos poros, pelos olhos.

A ausência de Clarice me forçava a ficar estático esperando qualquer possibilidade de vida entrar pela porta, esperando Clarice entrar e me devolver minha vida, mas Clarice não entrou e eu continuei estático tentando manter Clarice viva na casa, no quarto e em mim. E dentro de mim Clarice não morreria.

Clarice, ainda.


Clarice fingia ter paciência de aturar minhas crises de ciúmes sem cabimento. Mas eu sabia que ninguém é tão nosso, que não possa ser de mais ninguém. E Clarice era de mais alguém. Era dela mesmo, dos amigos que sempre reprovei, dos parentes insuportáveis, das pessoas que eu sabia que ela pertencia, das que eu não sabia e talvez por último minha. Na verdade o fato dela ser minha era mais uma vontade de me sentir seguro de tê-la ao meu lado pra sempre do que um fato mesmo.
Mas eu queria que Clarice fosse minha.
Clarice não acreditava nos mesmos ideais que eu e por isso não acreditava na eternidade. Eu também não acreditava, mas com ela era preciso. Era preciso acreditar que amores-duram-para-sempre-e-com-a-mesma-intensidade para poder me enganar pensando que Clarice estaria do meu lado na manhã seguinte. E eu repetia essa mentira comigo...
Ela-vai-estar-comigo-ela-vai-estar-comigo-ela-vai-estar-comigo-ela-vai-estar-comigo-ela-vai-estar-comigo-ela-vai... Eu repetia na frente do espelho velho com a cara cansada e com os olhos inchados de tanto chorar e implorar para que Clarice não mais brigasse comigo.
Mas ela não me ouvia, na verdade ela nunca me ouviu, sempre fez o que quis da sua vida, das suas escolhas, do meu dinheiro, da minha vida que era inteira dela. Clarice não me ouvia, brigava pela toalha molhada em cima da cama, pela escova de dente na pia, as cuecas no chão, as meias por lavar, os discos fora de ordem, pelo atraso das ligações, pelas ligações adiantadas Clarice brigava. Eu chegava tarde e ela estava lá, bravamente linda sentada no sofá velho do apartamento pequeno, e brigava. Brigava porque eu era distraído, mas Clarice não fazia idéia de como eu prestava atenção nela e em suas manias irritantemente perfeitas, de passar a mão delicadamente pelo lençol branco da cama antes de deitar, de mover a alça da xícara do lado esquerdo para o direito sem tirar os olhos do jornal, que lia todas as manhãs.
Clarice gostava de ler, coisa que eu mal sabia fazer e ela fazia perfeitamente. Devorava livros como eu devorava os cigarros. Praticamente na mesma velocidade, com a mesma vontade e o mesmo gosto pelo vicio. Clarice era apaixonada por Caio F. eu, por musica barata e com isso ficava nítida a diferença entre eu e ela, isso me empurrava cada vez mais pra fora da vida de Clarice.
E Clarice não era a mesma, não bebia como antes e além de controlada queria me controlar e eu me deixava ser controlado por Clarice. Confesso que não me deixava ser levado de bom grado, mas meu medo de perdê-la era maior que qualquer vício qualquer vontade de ser ‘livre’, porque era bom ser preso em Clarice, e eu era.
Clarice era realista e calculava todos os passos que ia dar e eu apenas ia, não olhava onde pisava e era sugado por buracos infinitos de ansiedade e angustia por mais uma vez ter feito a escolha errada. Até que Clarice me pegou pelas mãos e me levou em seus passos, e eu fui. Andei na sombra de Clarice ate confundir quem eu era e quem ela era, porque ela vivia dentro de mim, e vive. E queria Clarice ali, dentro de mim, querer esse que não era compartilhado e eu sabia que Clarice não queria isso. Na verdade tinha certeza, só fingia não saber que Clarice queria sair de dentro de mim e descansar as pernas frouxas de me carregar. Eu era pesado demais para Clarice e ela leve demais pra mim, ao ponto de não conseguir segura-la entre meus dedos finos e fracos do vicio do álcool. Eu era fraco, diferente de Clarice que continuava firme em seu destino, porque ela tinha um e nesse eu não poderia acompanhar seus passos e silenciosamente perguntava entre o ‘eu te amo’ e o ‘boa noite, amor’ com que pernas eu deveria seguir?
E eu não sabia a resposta, nem ela. Por isso continuava a ser um peso para Clarice, e ela a direção pra mim.

Clarice


Clarice não queria mais e esse desejo estava estampado em suas palavras tão secas que se eu ousasse tentar tocar elas desmanchariam em minhas mãos tremulas de medo. É, medo. Medo de não conseguir deixar Clarice como ela estava me deixando naquele momento, porque eu sabia que não teria a mesma capacidade que ela.

Clarice queria me convencer que era o certo me deixar pra trás, as palavras dela passavam por mim de forma afiada que chegava a cortar a carne, agora viva, e deixar em exposição os ossos fracos do meu corpo.

Minha alma pedia aos silenciosos berros para que Clarice não me deixasse, silenciosamente eu gritava, não-me-deixe-preciso-de-você-pra-ter-vontade-de-viver. Mas era silencioso demais meu pedido de socorro e ela não era capaz de ouvir, ou talvez fosse capaz sim, só não queria ouvir tal pedido pra não se sentir mais culpada de uma decisão que nem ela, nem eu, sabia ao certo o porque de estar sendo tomada.

Clarice era firme em suas decisões, até mesmo as erradas que não as deixava de executar mesmo sabendo das conseqüências que viriam logo depois. Clarice era decidida como eu não era.

Clarice na verdade era tudo que eu não era ou tudo que eu não queria ser, ou tinha medo de ser, ou só não era e Clarice sabia ser perfeitamente. E era esse seu encanto. Até quando seca Clarice era doce e gentil nas verdades dolorosas que com suas mãos delicadas esfregava em minha face. E não poderia negar que eram verdades, mas não acreditava nelas ou não queria acreditar, porque não acreditar seria ainda pensar que Clarice seria mais feliz comigo e isso era mentira, porque eu era o lado feio de Clarice.

Clarice não gritava, raramente falava palavrão, sempre pedia desculpas e era educada com todos, talvez isso me fizesse sentir o lado feio dela, eu era tão grosso-sem-educação-que-falava-errado-de-forma-engraçada e ela a personificação do perfeito.

Clarice estava decidida a me deixar e eu ciente de que não poderia nada fazer para mudar sua opinião, para desfazer seus argumentos, talvez porque eu acreditasse nesses argumentos que ela fazia questão de frisar toda vez que eu olhava pra ela em silêncio e dizia quieto que a amava e essas palavras ela podia ouvir, por isso continuava a recolher todas as lembranças dela do apartamento, assim era mais fácil não voltar a trás e voltar pra mim onde era o seu lugar. Talvez por isso Clarice me deixava naquele momento, por não pertencer a lugar algum, por ser do mundo e meu desejo de te-la-pra-sempre-do-meu-lado a sufocasse, a deixasse sem ar. E Clarice estava sem ar ao meu lado. Eu a sugava, eu vivia sua realidade, eu sonhava seus sonhos e isso a torturava. Clarice queria mais. Mas liberdade de ser o que ela era e que eu a impedia de ser. Mas eu não sabia o que eu era sem ela, diferente dela, que sabia exatamente quem era sem minha presença inútil.

Clarice foi embora. Eu também.